2005/02/20

RITUAIS

Os domingos de eleições, em casa dos meus pais, eram sempre dias especiais, cerimoniosos, importantes. O acto de ir votar era - e é - para eles, um momento de solenidade, pois passaram pelas agruras do Estado Novo.

Lembro-me de ser muito pequena (eu que já nasci depois do 25 de Abril) e de acompanhar os meus pais às mesas de voto. Recordo com especial carinho uma situação em que, já depois de terem votado, de eu ter perguntado à minha mãe, em voz alta, em quem é que ela tinha votado...

A resposta foi sussurrada num "o voto é secreto". Na altura não entendi o medo da minha mãe em divulgar o seu sentido de voto, pois em nossa casa a política era sempre o prato principal em todas as refeições.

Estávamos em 83, se não me falha a memória.

Anos mais tarde é que consegui perceber o medo enraizado que existia nas pessoas no acto de ir votar. Aliás, a tentativa de salvaguardarem o seu pensamento político.

Com o passar dos anos a solenidade manteve-se, mas olho para trás e vejo que só na década de 90 é que os meus pais se conseguiram libertar do jugo salazarista, assumindo, claramente, os seus ideais. O curioso foi que só o fizeram depois dos seus 3 filhos.

Talvez por isso, para mim, o acto de votar se mantenha uma tradição solene. Por respeito à memória de tantos que lutaram e outros cujo silêncio era a sua única arma.

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