2005/04/01

A QUASE TRANSIÇÃO

Hoje, sexta-feira, é quase impossível não focar o grande tema do dia: o estado de saúde do Papa João Paulo II… Há muito que o mundo aguarda o fim do seu sofrimento – eu, pelo menos, aguardo, outros ainda vão defendendo a esperança – e parece que a linha ténue entre a vida e a morte joga-se no tabuleiro deste homem.

Sem hesitações digo que foi um grande líder político. Soube gerir muitas crises, umas melhores outras piores, mas não deixou de carimbar o mundo com a sua presença atenta, embora a postura tenha sido sempre anti-comunista, mas foi contra a invasão do Iraque, isto a título de exemplos. Ao nível religioso a sua actuação foi menos boa, não deixou cair os muitos tabus eclesiásticos, ergueu bandeiras contra o aborto, a eutanásia, o preservativo e a homossexualidade. Mau, muito mau, principalmente quando se olha para os números do aumento da SIDA em África e em todo o mundo.

Lembro-me de ser uma miúda, muito criança mesmo, quando ele esteve em Portugal. Lembro-me do deliro das massas, das pessoas a chorarem, a gritarem palavras de fé. Deve ser uma das primeiras recordações que tenho.

Sou agnóstica por inteiro, não acredito em poderes superiores a mim, enquanto indivíduo que sou, e acredito que parte de nós a capacidade de melhorarmos o mundo, não de orações. Respeito, porém, as convicções religiosas. Para mim é como se fossem ideais políticos, que também não se podem discutir com ligeireza.

Nestes últimos anos assistimos a um Papa debilitado, com enormes dificuldades, a aparecer nas televisões e a balbuciar algumas palavras. Lá fomos vendo a decadência do homem que a Igreja não quis preservar, libertando-o do fardo de ser a figura máxima do catolicismo. Bem sei que a renúncia teria que partir do Papa, mas estaria ele suficientemente lúcido para a pedir? Teria ele forças para lutar contra o sistema?

A Igreja Católica assenta na imagem do sofrimento, da expiação da culpa, do arrependimento abnegado dos nossos pecados. Assenta na imagem de que todos devem sofrer à imagem de Cristo. É esse o retrato que vou guardar de João Paulo II, com grande pena minha…

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